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13 fevereiro 2011

Amor

Qual sua orientação de amor? Eros? Philia? Ahava? Ágape? outra exterior a da cultura judaico-cristã ocidental? Fala-se de amor o tempo todo, até mesmo fala-se de amor cortês do ponto de vista do amor romântico. Sustentar este sentimento chamado amor é no entanto o desafio, um desafio que se deixa cair pelo discurso. Afirmar o amor não é vivenciar a história de outros e sim vivenciar sua própria história: sem receita e sem forma.

13 dezembro 2010

Pergunte ao tempo*

O tempo passa no tempo certo? Ou só como percebemos depois dele passar? Pergunte ao tempo a quanto tempo ele existe. Pergunte se neste tempo foi alguma vez o tempo certo errado, ou o errado certo. Pergunte se ele conhece alguma coisa do seu passado e espera alguma coisa do seu futuro.
Mas não apenas espere resposta, pois é certo que não se sabe o tempo que o tempo responde

Que escravo do tempo tenhamos passado não significa servir com escravidão a todo tempo, nem mesmo mesmo aquele que no devido tempo espera precisa ficar parado ao ver o tempo passsar. Talvez com o tempo haja tempo para o tempo não venha ser ignorado ou superestimado, como quem repete os mesmo erros com o passar do tempo, ou quem não percebe que os tempos não são outros e o tempo é ele próprio o tempo todo.
"Estas rosas sob a minha janela não fazem referência a rosas anteriores ou a rosas melhores; são pelo que são; existem hoje com Deus; é perfeita a cada momento de sua existência... mas o homem adia e recorda. Não é capaz de ser feliz e forte enquanto não viver com a natureza no presente, acima do tempo."¹
 *O texto corresponde a reescrita de uma antiga postagem, título "Questionamentos", neste mesmo blog, a primeira postagem realizada. A escrita original é bastante rudimentar, algo que não diria quando o escrevi. Tive por preferência não deletar, mas seria de bastante satisfação o apagar.
1-
Autor: Ralph Waldo Emerson

08 setembro 2010

A história de uma vida

A vida é uma história...

A afirmação pode parecer ingênua, ou mesmo redundante, no instante imediato que recebe a afirmação, mas não é se levando em conta que nem tudo permanece registrado ou lembrado.
Que temos todos nossa própria história, isto é cada vez mais falso. Alguns anos li Castañeda e achei muito interessante a atitude de apagar a história pessoal, hoje considero como banalidade apagar a história pessoal, pois os laços de uma pessoa com suas experiências é irrelevante ao homem social, consigo até imaginar o exemplo de alguém que nascido e criado em um lixão o quase completo desconhecimento com quais seus próximos odeia-o ou ama-o. A vida não é um simples resultado de elementos, mas os elementos permitem compor resultados, e se tratando de vida os resultados são sempre imprevisíveis porque, ao contrário que se possa dizer, o passado sempre volta.
Terminei de ler mais um livro de Marguerite Duras Olhos Azus, Cabelos Pretos, ao escrever esta linha percebo que já dizia do livro desde o início de minha postagem, apenas não havia dado-me conta disso. Pretendia dizer o quanto me surpreendi em saber que a autora havia morado próxima a Saigon e que sua mãe era professora primária, tal como a personagem de seu livro O Amante. Já era de meu conhecimento que Marguerite Duras seria uma autora que não simplesmente inventa uma obra com a impessoalidade, ler Marguerite Duras é ler Marguerite Duras, acontecimentos de sua vida são traduzidas em palavras nos seus livros, é um dos poucos exemplos que conheço de alguém conseguir tranformar algo rigorosamente pessoal em público¹. Raramente um vida de interesse público, o homem moderno parece se preocupar mais com "o que fulano tem" que o "de onde ele vem", substituir simplesmente a 1ª pela 2ª não chega a resolver qualquer coisa e sim trato aqui de observar como a impessoalidade é intronizada em nossa pessoalidade, pensamos geralmente o outro como impessoal e por isso sem história senão aquela que costumamos ler e principalmente gostamos de ler.
Tem autores que escrevem aquilo que leitores querem ler, fazem sucesso por não arriscar fazer o leitor expandir sua capacidade de criar significações da realidade, em detrimento atraí para uma representação cristalizada. Talvez a guerra entre humanos e robôs, que de Isaac Asimov foi amplamente adaptada por mais diversos autores, não venha a acontecer. A impressão é que os robôs já estão entre nós, importa muito seu custo X benefício e pouco importa a mão de obra que a produziu, desde que ela enquanto ferramenta dê a produtividade esperada. Dizem por aí que algumas pessoas tem defeito na fabricação, instalação de metilfenidato ou haloperidol ou fluoxetine periodica é recomendada com diversas indicações seu de uso estabelecerem funções normalizadas.
 Fica como reflexão a introdução do filme Trainspotting², dizendo: "Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadoras de roupa, carros, CD players e abridores de latas elétricos. Escolha boa saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha uma hipoteca a juros fixos. Escolha sua primeira casa. Escolha seus amigos. Escolha roupas esporte e malas combinando. Escolha um terno numa variedade de tecidos. Escolha fazer consertos em casa e pensar na vida domingo de manhã. Escolha sentar-se no sofá e ficar vendo game shows chatos na TV enfiando porcaria na sua boca. Escolha apodrecer no final, beber num lar que envergonha os filhos egoístas que pôs no mundo para substituí-lo. Escolha o seu futuro. Escolha viver.".

1 - Nas palavras de Marguerite Duras "Não existe nada mais público que aquilo que é rigorosamente pessoal."
2 - Vale a pena fazer consideração aqui que o filme é adaptação de um livro homônimo.

15 dezembro 2009

Motivos

Dizemos, pensamos e fazemos muitas coisas... geralmente sabemos explicar o porque de cada coisa nossas motivações, sobretudo temos opiniões sobre nós mesmos que nos justifica, ou por vezes outros tem opiniões que nos justifica... ou talvez tudo isso um pouco... ou mesmo nada disso dito...
Eis aqui a questão que parece lenga lenga de livro de auto-ajuda, misticismos frutos de opiáceos ou mero devaneio pós Descartes: Construimos pelo nosso saber uma prisão, sabendo vamos trilhando indefinidamente, sem considerar qualquer coisa que não sabe ou não achou necessário... ignorando que cada qual sabe coisas diferente e parecem comungar do mesmo saber. Não muito preciso, mas questão não é aqui de saber mais ou menos, questão é de como se sabe. Saber para não saber é a maior armadinha que se pode cair, armadilha que funciona muito bem. Não é bem questão de duvidar de tudo, mas de não ter verdade construída... tal como construímos tão facilmente a imagem de nossa inocência, nossos hábitos freqüentemente não nos faz criminosos... temos nossos motivos... motivos que ninguém mais entenderia.

14 junho 2009

Mental

Este mês estreou um novo seriado na Fox, seu nome: Mental


Em sua publicidade existem diferentes atrativos, basta fazer uma busca pela internet para descobrir notícias de que é um seriado rodado na Colômbia, ou que nele há uma personagem lésbica. Em sua sinopse: “Psiquiatra usa habilidade de penetrar na mente de seus pacientes para ver como eles pensam e cria métodos de tratamento muito pouco ortodoxos”.


O seriado pretende ser inovador havendo uma clara descentralização do tratamento na farmacologia para “outra coisa”, e nessa “outra coisa” é que o seriado ganha uma dimensão pobre daquilo que ousa retratar que é a utilização de métodos pouco convencionais de tratamento. É incrível que em uma hora de episódio seja possível ater-se a detalhes que possíveis fazer conhecer a forma de intervir no sofrimento mental dos seus pacientes e realizá-las, ao fazer isso coloca a loucura em uma lógica na qual qualquer um tem condições de compreender se tiver interesse e boa vontade de ajudar, de fazer o bem. Que o tratamento psiquiátrico deve conter alternativas outras que não apenas a farmacológica é afirmativamente uma aposta válida, e muito, no entanto não é apostando a veracidade de nossos próprios valores, tais como família, trabalho, amor, companheirismo, verdade, entre outros que se encontra o lugar da loucura em habitar fora de um hospital psiquiátrico. Se chamamos algo de louco é porque este encontra-se em um campo diferente aos valores sociais que compartilhamos, ou melhor, que achamos compartilhar. O amor de uma erotomaníaca é um exemplo de valor (amor) que para um ouvinte desavisado parece expressar o sentimento verdadeiro que daquilo que chamamos por amor, mas se para um ouvinte desavisado “parece” é porque antes de conhecer a história este ouvinte quer julgar se verdade ou não, enquanto na loucura procede como no slogan do filme Estamira, e que fala da própria: Tudo Que É Imaginário Tem, Existe, É.

Assistindo aos três episódios, que até então foram ao ar, fica uma sensação da medicina ser a única responsável por tratar esquizofrenia, como sendo irrelevante um tratamento interdisciplinar, e mais que isso, parece que tratar da loucura é tratar apenas do louco, isso equivale dizer que nada do social é de comprometimento com a loucura.

É considerável dar uma chance ao seriado mostrar-se menos ingênuo, até agora pouca coisa nele apareceu que condiz com a realidade dos tratamentos psiquiátricos que não manicomiais, o seriado faz parecer que o sistema de tratamento em saúde mental nos EUA está extremamente atrasado, pelo menos essa é a consideração que alguém com experiência em saúde mental tem ao assistindo a série


25 janeiro 2009

Amor

"Como termina um amor? - O quê? Termina? Em suma ninguém - exceto os outros - nunca sabe disso; uma espécie de inocência máscara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça à região da Amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo nem mesmo dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). Esse fenômeno resulta de uma indisposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim minha história de amor: sou o poeta (o recitante) apenas do começo; o final dessa história, assim como minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam o romance, narrativa exterior, mítica."

Extraído de : Fragmentos de um discurso amoroso - Roland Barthes

15 julho 2008

Solidão

"Todo mundo tem sua riqueza,
só eu pareço desprovido.
Meu espírito é o de um ignorante
porque é muito lento.
Todo mundo é clarividente
só eu estou na obscuridade.
Todo mundo tem o espírito perspicaz
só o meu é confuso
e flutua como o mar, e sopra como o vento.
Todo mundo tem seu objetivo
só eu tenho o espírito obtuso como um camponês.
Só eu sou diferente dos outros homens,
porque insisto em sugar o seio de minha Mãe."

O texto acima citado não é nem de Freud, nem de Lacan ou qualquer outro psicanalista, ele refere-se a um trecho do Tao Te Ching, basta saber isso e o que achar ou não é problema de você que está lendo neste momento.

02 junho 2008

Ausência*

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora
E sozinha supor
Que se estivesses dentro
Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora
Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

*Canção I - Hilda Hilst/Zeca Baleiro
CD: Ode descontínua para flauta e oboé de Ariana à Dionísio

22 abril 2007

Singularidade

"...
Quando entrou no restaurante, sentou-se em seu lugar de costume e olhou para mim. Nossos olhos se encontraram. A próxima coisa que percebi foi ele soltando um grito incrível, que me gelou até os ossos, e a todos os presentes. Todos olharam para mim, com os olhos arregalados, alguns ainda com a boca cheia de comida. Obviamente eles pensaram que eu havia gritado. Eu já havia aberto um precedente quando soquei o balcão e ri alto. O homem pulou do banco e saiu correndo do restaurante, voltando-se para me olhar enquanto fazia gestos agitados com suas mãos sobre a cabeça.
Não resisti a um forte impulso e corri atrás do homem. Queria que ele me dissesse o que vira em mim para fazê-lo gritar. Alcancei-o no estacionamento e perguntei-lhe por que gritara. Cobriu os seus olhos e gritou novamente, ainda mais alto. Era como uma criança amedrontada por um pesadelo, gritando a plenos pulmões. Deixei-o e voltei ao restaurante.
- O que houve com você meu querido? - a garçonete perguntou com um ar preocupado. - pensei que tivesse saído correndo de mim.
- Apenas fui ver um amigo – disse eu.
- Aquele cara é seu amigo? – perguntou ela.
- O único amigo que tenho no mundo – disse, e era verdade, se eu pudesse definir “amigo” como alguém que vê através da aparência, da camada superficial que cobre você, e sabe de onde você realmente vem."


Trecho do livro "O Lado Ativo do Infinito" de Carlos Castañeda

28 novembro 2006

Transmutação

Quando olhei para mim mesmo algo estranho ocorreu, eu não era mais eu, aquele eu que seria para outros e para mim mesmo...foi ao mesmo tempo que vi os outros não serem mais ninguém, pois não espelhavam mais um exemplo de eu, algo que poderia tomar em alguma instância a mim mesmo...

Eu – múltiplo, eu – único, em coexistência por meio de acontecimento pela experiência, não mais por expectativas nem próprias nem de outros.

Bebo um gole de água, tem um gosto diferente da mesma água que a pouco tomei... e ainda assim não faz tanta diferença porque ela antes já devia ter esse gosto.Encerra-se o momento de perguntas e ter respostas, neste momento apenas percebo e me calo.